sexta-feira, 6 de maio de 2011

Mourilhe (Montalegre) - uma freguesia continuadamente regressiva

CARACTERIZAÇÃO
Mourilhe é freguesia do concelho de Montalegre, situada no sector Norte do concelho, no limite com Espanha, localizando-se a Noroeste da sede de concelho.
Toda a freguesia se encontra na unidade de paisagem Serras do Larouco e Barroso, em zona de montanha com uma altitude média superior a 1100 metros, tendo clima de terra fria de montanha.
Ocupa uma superfície territorial de 1708ha, tendo 8,4hab/km2 de densidade populacional. Integra os aglomerados de Mourilhe e Sabuzebo.A freguesia atingiu o máximo populacional em 1950 (613 habitantes), a partir da qual registou diminuições significativas da população, em particular nas décadas de 70/81 e 81/91, perdendo 77% da população de 1950 a 2001. Em 2001, tem 144 habitantes, tendo-se registado um aumento significativo dos idosos, que representavam, em 2001, 33% dos residentes, originando com que o índice de envelhecimento seja elevado.
Cerca de 42% da população não tem nenhum nível de instrução, 38% tem o 1º ciclo e apenas 4% tem instrução além do 3 ciclo.
Verifica-se a diminuição das famílias clássicas (-23%), aumentando os alojamentos (13%) e dos edifícios (13%).A freguesia apenas dispõe de vias municipais, encontrando-se a 9 minutos da sede de concelho, a 56 minutos da aglomeração regional, ultrapassando 75 minutos para aceder à cidade de equilíbrio regional.
Não existe rede de transportes local, nem praça de táxis, o que coloca esta população numa situação periférica.A freguesia dispõe de um posto de telefone público, 2 cafés e 2 mercearias, não tendo qualquer equipamento colectivo.
Apresenta uma elevada carência de funções não especializadas e um índice de marginalidade muito forte.
A população activa representa 50% dos residentes, existindo, em 2001, 72 indivíduos empregados, sobretudo no sector primário (60%), não existindo qualquer desempregado. Em 2005, apenas 1 indivíduo se encontrava empregado por conta de outrem, nomeadamente no alojamento e restauração. Embora a população agrícola e o seu peso na população total tenham diminuído, uma parte significativa da população ainda tem ocupação na agricultura (77%).
Os produtores singulares diminuíram (-14%), sendo os rendimentos de 88% dos produtos principalmente das actividades agrícolas.
As explorações diminuíram (-10%), aumentando substancialmente a área média das explorações, devido ao aumento da exploração por conta própria, em particular de área de pastagens.A SAU aumentou (90%), em grande medida derivado da inclusão de várias áreas de pastagem permanente (466ha), diminuindo a terra arável em cultura principal (-28%) e as culturas temporárias em cultura principal (-27%), denotando o abandono das terras e culturas mais exigentes em mão-de-obra.
Embora tenha diminuído, a vegetação arbustiva e herbácea ainda predomina (39,3%), verificando-se um aumento das zonas descobertas (representam 21,7%). As zonas agrícolas heterogéneas (21,1%) e as pastagens (18%) também têm expressão no uso do solo da freguesia.

ANÁLISE
Nos últimos 50 anos, a freguesia ficou fortemente marcada pela diminuição da população, embora tenha havido uma melhoria significativa das condições de vida dos residentes, nomeadamente em termos de infra-estruturas rodoviárias e infra-estruturas eléctricas, de abastecimento de água, condições sanitárias e comunicações, porém, a existência destas infra-estruturas não era a condição principal para a manutenção da população. Verificou-se também uma grande transformação na composição das famílias, que registaram uma grande diminuição do número de elementos, em parte resultante da continuada saída da população residente, nomeadamente dos residentes mais jovens.
A diminuição da população teve como principal factor a emigração para o estrangeiro, sobretudo a partir da década de 60, que foi quando começaram a emigrar as primeiras pessoas da freguesia, nomeadamente os residentes do sexo masculino, que saíram para França pois havia uma grande oferta de trabalho e uma consequente relativa facilidade na sua legalização, com empregabilidade predominante na construção civil e agricultura. Em virtude da emigração de alguns residentes durante a década de 60, na década de 70 intensificaram-se os movimentos migratórios para França, nomeadamente familiares e amigos dos emigrantes que lhes arranjavam empregabilidade, nomeadamente na construção civil, serviços domésticos e limpezas. Também nesta altura ocorreu o abandono de alguns residentes para os Estados Unidos da América. Nas décadas de 80 e 90 também houve muita emigração na freguesia, tendo como destinos França e os Estados Unidos da América, nomeadamente dos familiares dos emigrantes, surgindo a Suíça como destino preferencial da emigração, nomeadamente dos residentes mais jovens, cuja empregabilidade era maioritariamente na construção civil, hotelaria, restauração e limpezas. Embora com pouca representatividade em termos globais, durante os anos 80, também para Inglaterra partiram 2 ou 3 famílias. Desde o ano 2000, a generalidade dos mais jovens quando terminam a escolaridade obrigatória também acabam por emigrar (estima-se que tenham saído cerca de 20 residentes), cujo principal destino tem sido a França. Os poucos jovens que prosseguiram para o ensino superior (Braga e Porto) acabam por não regressaram nem à freguesia nem ao concelho, pois não têm empregabilidade.
Na freguesia existem alguns emigrantes, idosos já reformados, que regressaram (cerca de 12 pessoas), tendo regressado todos à freguesia, dedicando-se ao cultivo das suas propriedades agrícolas, numa agricultura familiar para auto-consumo. A generalidade dos filhos dos emigrantes não voltaram nem pensam em voltar, regressando apenas durante o período de férias (Julho e Agosto), quando a população presente ultrapassa 400 pessoas, pois regressam os emigrantes e as respectivas famílias. O regresso dos emigrantes mais idosos e o abandono dos mais jovens originou um forte envelhecimento na população da freguesia, existindo actualmente menos de 25 residentes com menos de 30 anos, pois número de nascimentos é cada vez menor (existem 7 crianças com menos de 10 anos). O facto de a população estar dividida em dois aglomerado não é considerado influenciador de um maior esvaziamento demográfico, tendo em conta que as pessoas saíram à procura de salários e melhores condições de vida, devido à reduzida empregabilidade e à pouca rentabilidade da agricultura. Nem a freguesia nem o município tem ou teve qualquer estratégia para a manutenção da população, não existindo forma de fixar a população nas aldeias da freguesia.
A rede viária da freguesia é considerada de razoável qualidade, embora existam algumas ruas que se encontram em mau estado ou são muito estreitas, limitando a circulação automóvel. Antigamente as pessoas deslocavam-se a pé ou a cavalo até à sede de concelho que é o principal local onde os residentes locais se deslocam, porém actualmente deslocam-se maioritariamente de automóvel particular, enquanto os residentes que não têm transporte próprio se deslocam à boleia de amigos e familiares ou com recurso ao táxi, pois a freguesia nunca esteve servida por transportes públicos. A curta distância à sede de concelho não teve influência no esvaziamento populacional, porém o elevado tempo de acesso aos principais centros urbanos da região foi determinante na saída da população pois a empregabilidade existente nas proximidades da freguesia era reduzida e muito limitada a trabalhos agrícolas que são muito pouco atractivos para a população jovem.
Na freguesia não se encontra em funcionamento qualquer equipamento colectivo, existindo apenas 2 minimercados e 2 cafés, embora a freguesia seja servida por vendedores ambulantes quer de pão, quer de peixe, carne e fruta, os quais são importantes para a população idosa com maiores dificuldades de deslocação. Os residentes têm de se deslocar à sede de concelho para poderem aceder aos vários equipamentos colectivos e aos vários serviços, públicos e privados, incluindo a generalidade dos serviços e o comércio não alimentar. A igreja e a antiga escola (funciona o bar convívio da associação da freguesia) são espaços ainda muito utilizados pela população, embora a socialização dos residentes seja sobretudo feita nas ruas. A freguesia não está servida por serviços móveis, contudo seriam importantes pois evitariam que os residentes se deslocassem à sede de concelho, em particular para os mais idosos.
Antigamente, alguns residentes tinham empregabilidade na agricultura em 3 ou 4 casas de famílias mais ricas que davam trabalham e pagavam a denominada jorna, existindo também alguns residentes que exploravam propriedades dessas famílias em parceria com os patrões. Também a generalidade dos residentes tratava das suas propriedades, cultivando alguns produtos que serviam de base à sua sustentação, nomeadamente a batata, o milho e o centeio, para além dos vários produtos hortícolas. A criação de bovinos de carne era uma das principais fontes de rendimento dos residentes, nomeadamente através da venda dos vitelos, sendo os animais também muito utilizados nos trabalhos agrícolas. Actualmente, a agricultura continua a ocupar uma grande parte dos residentes, embora não exista pessoas empregadas na agricultura por conta de outrem, trabalhando cada um para si, nas suas propriedades ou nas propriedades de familiares, nomeadamente algumas propriedades dos emigrantes que estão cedidas a terceiros. Os produtores existentes são na sua maioria de média idade ou idosos, sendo a criação de bovinos de carne frequente na generalidade dos produtores pois é a sua principal fonte de rendimento, existindo cerca de 250 bovinos na freguesia, na sua maioria de raça barrosão. O cultivo de batata, milho e centeio têm reduzida expressão em termos de vendas, sendo utilizados maioritariamente na alimentação das famílias e dos animais, enquanto o cultivo de horta familiar é frequente na generalidade das famílias, donde obtêm alguns produtos hortícolas para a sua alimentação. A criação de caprinos também se encontra presente na freguesia, sendo a principal fonte de rendimentos de 3 famílias, existindo também criação de suínos em algumas famílias, nomeadamente para a produção de fumeiro, que é utilizada por algumas famílias para a obtenção de rendimentos complementares, usufruindo da venda na feira de fumeiro realizada na sede do concelho e, em consequência, através da venda directa a particulares que se tornaram clientes fixos dessas famílias. Existem 3 residentes empregados em empresas de construção civil de outras freguesias do concelho, enquanto na sede de concelho trabalham 7 residentes, nomeadamente no comércio e serviços. Os estabelecimentos comerciais são a fonte de rendimento de 2 famílias (minimercados e cafés), enquanto 2 residentes se encontram empregados na unidade de turismo rural existente na freguesia, sendo um elemento fundamental para o turismo da freguesia, nomeadamente ao fim-de-semana e em épocas festivas. De salientar ainda que existem 2 ou 3 casas na freguesia de segunda residência, nomeadamente de pessoas naturais da freguesia que residem em outros locais do país, nomeadamente no Porto e em Braga.
Nos próximos anos, de acordo com as gentes locais, a freguesia ficará mais pobre e cada vez com menos gente pois quem parte não regressa e existem muitos residentes idosos, perspectivando-se que, daqui a 10 anos, existam apenas 80 residentes. Não existe por parte da freguesia e do município uma clara estratégia de dinamização e revitalização, intervindo-se apenas na melhoria das condições de vida dos residentes e prestando apoio aos residentes locais na realização de projectos agrícolas e dos subsídios de apoio à agricultura. Finalmente, é salientado que os apoios prestados dificilmente inverterão a situação de crescente despovoamento, pois é um fenómeno a que não há volta a dar.

IN http://hdl.handle.net/10216/51026

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Soutelo Mourisco - uma freguesia continuadamente regressiva

CARACTERIZAÇÃO
Soutelo de Mourisco, freguesia do concelho de Macedo de Cavaleiros, situada no extremo NE do concelho, no limite do concelho com os concelhos de Vinhais e Bragança.
Encontra-se na Terra Fria Transmontana, em zona de montanha (fraldas da serra de Pombares), ocupando uma superfície de 1248ha, que representa uma densidade populacional inferior a 5hab/km2.
Integra os aglomerados de Cabanas, Soutelo Mourisco e Vilar D’Ouro.A freguesia perdeu 79,6% da população entre 1950 e 2001. Na década de 50/60 ainda regista um aumento populacional, atingindo o máximo populacional em 1960 (323 habitantes). Nas décadas seguintes diminui de forma significativa. Em 2001, tem 60 habitantes, sendo 25 em Cabanas, 21 em Soutelo Mourisco e 14 em Vilar D’Ouro. Os jovens têm cada vez menor peso (13% em 2001) e o peso da população idosa aumenta, denotando-se num forte agravamento do índice de envelhecimento.
Cerca de metade da população não tem nenhum nível de instrução e 5% tem instrução acima do 1 ciclo.
Verifica-se a diminuição das famílias clássicas (-43%), manutenção dos alojamentos e dos edifícios.A freguesia apenas dispõe de vias municipais, encontrando-se a cerca de 30 minutos da sede de concelho e a 40 minutos da aglomeração regional, ultrapassando 90 minutos para aceder à cidade de equilíbrio regional.
Não existe rede de transportes local, nem praça de táxis, o que coloca esta população numa situação periférica.A freguesia dispõe apenas de uma função (posto de telefone público). O equipamento escolar existente, em 2002, à data encontra-se encerrado.
Apresenta uma elevada carência de funções não especializadas e um índice de marginalidade muito forte.A freguesia tem uma reduzida percentagem de população activa (10%), tendo somente 4 indivíduos empregados, em 2001, em particular no sector secundário (75%), contudo existiam apenas 2 desempregados. Em 2005, já não existe nenhum indivíduo empregado, derivado do facto da maioria da população não ter qualquer actividade. A maior parte da população tem ocupação no sector agrícola, sendo a população agrícola (62 indivíduos), em 1999, superior à população residente (60 indivíduos), em 2001, contrariamente ao que ocorria no período anterior.
As explorações diminuíram, mas também a área média da exploração, em virtude da menor área de SAU explorada, sendo cada vez menos os agregados familiares com actividade exclusiva na actividade agrícola.Refira-se a diminuição na utilização das terras, excepto nas culturas permanentes e nas matas e florestas sem cultura sob coberto, que denotam o crescente abandono das terras e das culturas mais exigentes em mão-de-obra.
A vegetação arbustiva e herbácea predomina e registou aumento (205ha), existindo também aumento da área de floresta (25ha), diminuindo as zonas agrícolas heterogéneas (ainda representam 30% da área da freguesia), situação que se encontra associado ao crescente abandono da freguesia.

REFLEXÃO
A dinâmica de recessão da freguesia foi fortemente marcada pela emigração da população para o estrangeiro, tendo sido impulsionada pelo efeito de imitação/difusão a partir de um ex-residente entretanto emigrante em França. Ou seja, um habitante local emigra e vai arranjando trabalho para outros, enquanto um “passador” dá apoio na passagem da fronteira, originando ciclo sucessivo (iniciado em 1965) com efeitos cumulativos que leva a população local, na sua maioria, para França. Os habitantes procuram novas formas de vida, pois a única fonte de rendimento é a agricultura e esta era cada vez menos rentável. Mais recentemente, a partir dos anos 1990, surge uma nova onda de emigração, com a generalidade da população a emigrar, sobretudo para França e Suíça, ficando sobretudo os mais idosos, originando o despovoamento generalizado da freguesia. Aqui, as migrações de população para o litoral foram em número reduzido e sobretudo a partir da década de 90, tendo sido também muito poucos os que saíram da freguesia para ir para as cidades mais próximas.
O regresso dos emigrantes é praticamente inexistente. Nos anos 1970, foram pouquíssimos os que regressaram das colónias (3 ou 4 pessoas) e se instalaram na freguesia. Os emigrantes que na última década têm voltado não regressam para a freguesia, instalam-se sobretudo em Macedo de Cavaleiros e Bragança (4 famílias), existindo apenas dois casais que se instalaram na freguesia. Os filhos dos residentes que vão estudar/trabalhar para as cidades são poucos, mas também estes não regressam, vindo pontualmente à freguesia (fim de semana ou férias). Nenhum dos filhos dos emigrantes veio residir para a freguesia e, aparentemente também não foram para as cidades próximas.
A população da freguesia encontra-se bastante envelhecida, sendo muito poucos os jovens, existem apenas 6 habitantes com cerca de 10 anos, e no aglomerado de Vilar D’Ouro, o habitante mais novo tem 45 anos, tendo a grande maioria mais de 80 anos. Desde há 25 anos para cá, os nascimentos são em número muito reduzido, existindo mesmo um aglomerado onde não nasceu ninguém. No período de Verão, regressa muita gente à freguesia, nomeadamente os emigrantes e os respectivos filhos que vêm passar as férias, juntando-se mais de 300 pessoas, dando outra dinâmica e vida aos aglomerados. Existem também 3 a 5 famílias que residem na Área Metropolitana do Porto e que têm casa na freguesia, vindo, por vezes, passar o fim-de-semana e parte do tempo das férias.
O facto de a população estar dividida em três aglomerados, não teve influência no esvaziamento demográfico, sendo as principais causas das dinâmicas populacionais regressivas a baixa rentabilidade da agricultura tradicional, dados os custos das matérias-primas e dos fertilizantes, nomeadamente os adubos. Esta agricultura tradicional não está organizada e certificada para conseguir competir com os preços de uma agricultura de mercado. Os preços praticados são muito reduzidos face aos custos, sobretudo perante produtos que têm vindo a registar quedas de preços os vitelos valiam mais há vinte anos que valem hoje).
A rede viária apresenta limitações, existindo troços sem tapete betuminoso e que necessitam de ser melhorados, de modo a permitir diminuir a distância e o tempo de acesso à sede de concelho, contudo, a rede existente é suficiente para suprir as necessidades de deslocação, pois a população é muito reduzida. Antigamente as pessoas deslocavam-se a pé, ou usando os animais, indo muitas vezes, a pé até Santa Comba de Rossas (9 km) onde apanhavam o comboio. Também iam a pé a Macedo, nomeadamente para vender o carvão. Actualmente as pessoas deslocam-se de automóvel, embora não existam muitos na freguesia, pois os habitantes que têm automóvel acabam por transportar os outros, dado que não existe nenhum meio de transporte público (em tempos existiu uma carreira de ligação à sede de concelho) e não é muito utilizado o táxi. A distância à sede de concelho teve influência nas dinâmicas recessivas, pois alguns dos jovens que andam a estudar em Macedo de Cavaleiros acabam por ficar aí numa residência de estudantes. O transporte destes alunos teria de ser em táxi até à freguesia vizinha (Espadanedo) e de autocarro da Câmara Municipal para Macedo de Cavaleiros.
Desde há vários anos que a freguesia está servida de abastecimento de água, luz, telefone, tendo apenas à 12 anos ligação viária alcatroada entre os aglomerados da freguesia, contudo não foram estes elementos determinantes na evolução da população, sendo sobretudo a inexistência de oferta local de empregabilidade que desencadeou o abandono.
A freguesia nunca dispôs de nenhum tipo de comércio, sendo que o pão e a mercearia chegam à freguesia três vezes por semana, através dos vendedores ambulantes. Chegaram a funcionar 2 escolas, encontrando-se uma encerrada há cerca de 20 anos e a outra encerrou à 6 anos. Apenas a igreja e as 2 capelas são equipamentos utilizados pela população, sendo importantes dada a vocação religiosa, servindo também para a socialização entre os residentes, nomeadamente nos períodos antes e após as celebrações. Os espaços de utilização pública são em número reduzido.
Nunca houve empregadores, mesmo no sector agrícola. As pessoas que trabalham na agricultura, geralmente trabalham por conta própria, embora existisse uma grande entreajuda entre os vários habitantes. Nas duas últimas décadas, várias pessoas saem temporariamente para realizar trabalhos sazonais, pois a agricultura local é para subsistência, tal como foi ao longo dos tempos. A agricultura tradicional mecanizou-se mas continua a não se dirigir para o mercado. Cada vez mais os campos estão abandonados, pois existe pouca gente, mesmo os emigrantes que possuem terrenos têm cada vez mais dificuldades em arranjar quem fique entregue das suas propriedades. Os agricultores são idosos, muitos deles reformados, produzindo essencialmente batata, centeio e alguma castanha, e cultivando uma pequena horta para auto consumo. Os animais na freguesia são em número cada vez mais reduzido – existem poucos bovinos (7 vacas), 2 rebanhos de ovelhas e 1 de cabras. A comercialização das produções é feita pelos “comerciantes ambulantes” que passam na freguesia e adquirem os produtos, para depois os venderem nas feiras da região e a comerciantes de outras regiões. No caso dos animais, a venda também é feita através de intermediários, sendo contactados pelos produtores locais sempre que têm animais para vender.
A floresta encontra-se sobretudo em terrenos baldios, sendo gerida pela Comissão de Baldios, que tem 60% da produção, a qual tem vindo a aumentar por regeneração natural devido ao crescente abandono dos campos, nomeadamente nos terrenos baldios e mesmo em propriedades privadas abandonadas. A caça assume também alguma importância, atraindo alguns visitantes (Zona de Caça de Soutelo Mourisco), beneficiando a freguesia directamente das taxas e licenças de caça pagas pelos caçadores. O turismo não tem expressão económica, pois só aparecem alguns turistas, sobretudo estrangeiros, nomeadamente nos meses da Primavera e Verão. Um dos elementos de atracção local era o rali, que acabou por ser desviado para outros percursos, devido à presença local de habitats de lobos.
Nunca houve nenhum tipo de indústria localizada na freguesia e não há residentes locais a trabalhar fora na construção civil ou noutra actividade. Quando alguém arranja emprego fora, é sobretudo no comércio e serviços em Macedo ou Bragança, acabando por ir residir para essas localidades.
Segundo os residentes locais, daqui a 10 anos, a freguesia não terá mais de 10 pessoas, sendo uma situação irreversível.

IN http://hdl.handle.net/10216/51026

Cereja a caminho das 100 toneladas

Os responsáveis pela Cooperativa Agrícola de Alfândega da Fé (CAAF) estimam que os seus 60 hectares de cerejeiras atinjam este ano uma produção aproximada de 100 toneladas.


De acordo com o presidente da CAAF, Eduardo Tavares, as condições climatéricas que têm sido favoráveis tanto no período da floração, quer na época do rebentamento do fruto, factores que se demonstram “determinantes” para um “aumento da produção”, face a anos anteriores.
“ Este ano esperamos atingir as 100 toneladas de cereja. Para além das condições climatéricas favoráveis há uma série de novos pomares, que entraram na sua fase de plena produção”, observou o responsável.
Apesar das flores de cerejeira terem já desaparecido, nas árvores é já possível observar pequenos frutos em fase de desenvolvimento que atingiram a sua maturação lá para finais de Maio início de Junho.
No ano passado a produção de cereja registou quebras “significativas”, devido às geadas tardias que se abateram sobre a região onde estão concentrados os pomares da CAAF.
“ Na campanha da apanha de cereja do ano passado a produção rondou apenas as 40 toneladas, o que se traduz numa grande quebra de produção,” acrescentou Eduardo Tavares.
Agora com os olhos posto no futuro, os responsáveis pela CAAF esperam “duplicar” a sua produção de cereja face a este ano e ultrapassar as 200 toneladas, para assim entrarem em pleno no mercado nacional de comercialização de cereja.
“Com o previsto aumento de produção, pretendemos escoar o nosso produto para as grandes superfícies comerciais existentes no país, ao mesmo tempo marcar presença em certames de âmbito nacional com os que se realizam em Alfândega da Fé, Santarém ou Vila Nova de Gaia,” disse o dirigente da CAAF.


Por: Francisco Pinto, in Jornal Nordeste (03-05-2011).

Estou de volta

Passado algum tempo, estou de volta para divulgar as novidades de Trás-os-Montes e Alto Douro......

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O despertar do “país sonolento”: contributo das feiras de produtos locais para um novo projecto de desenvolvimento territorial

Com base nos dados do último censo, João Ferrão (2001) classificou 45% das freguesias portuguesas como “país sonolento”. Grande parte destes espaços encontram-se no interior do país, com particular incidência nas regiões Norte e Centro, correspondendo a territórios com perdas demográficas significativas que se encontram, muitas vezes, num “círculo vicioso de subdesenvolvimento” (Ferrão, 2001). Estes territorios de baixa densidade têm vindo, neste início de século, a dinamizar, com maior ou menor intensidade, processos de transformação indutores de mudanças significativas. Os territórios parecem estar a despertar. Entre as alterações mais visiveis, as feiras de produtos locais estão a contribuir para a criação de uma nova inteligência colectiva. Em torno destes eventos têm sido divulgadas produções, costumes e dialectos, originando o despertar dos territórios e das suas identidades. Funcionando como uma forma de manifestação da cultura popular, de promoção e divulgação do artesanato, da gastronomia, do folclore e dos produtos locais de qualidade, redescobre-se e reconstroiem-se os recursos locais, através da mobilização colectiva. São de certa forma uma montra dos municípios e da região, procurando a valorização dos lugares, das gentes e das produções locais.
A visão nostalgica do campo ganha uma força estratégica que está a “acordar” nos territórios de baixa densidade. Os territórios “sonolentos” estão a dinamizar processos de mudança, criando os novos alicerces para um novo projecto de desenvolvimento territorial. As feiras são apenas um dos sintomas desses processos. Com as feiras locais revaloriza-se o rural (enquanto memória, património e paisagem), através de uma alavancagem a partir das autarquias. Neste âmbito, é necessário aproveitar todos os recursos do território, apostar na identidade do lugar e na identificação do consumidor com o lugar - nas feiras os visitantes procuram uma imagem, uma representação do rural. Isto não significa que as imagens e as representações não estejam a ser reconstruídas.
O tema deste estudo focaliza-se nas feiras de produtos locais realizadas em Trás-os-Montes e Alto Douro. Com base em inquéritos realizados aos visitantes e expositores da feira do fumeiro de Vinhais e da feira da caça e turismo de Macedo de Cavaleiros, este artigo visa avaliar o real significado e importância destes acontecimentos na dinamização das actividades locais e manutenção da população, avaliar a sua visibilidade nos territórios urbanos e a capacidade de atracção de visitantes de fora do concelho e de fora da região/país, bem como a avaliação dos seus impactos. Apresenta-se uma analise detalhada dos resultados dos inquéritos realizados, os quais indiciam que estes eventos funcionam como um novo espaço de relacionamento urbano-rural, contribuindo para valorizar “novas actividades” em espaço rural, tendo grande importância na divulgação e venda dos produtos regionais por parte dos expositores locais. Finalmente, refira-se o peso dos visitantes com formação superior, sendo a área de influência destes eventos relativamente grande, com visitantes de várias partes do país e do estrangeiro.

Resumo de artigo a apresentar no VII Congresso de Geografia Portuguesa em Novembro de 2009.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Avenida dos Aliados transforma-se em Terreiro do Paço

A Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) promoveu, na passada quinta-feira, a apresentação do Plano Regional de Ordenamento do Território Norte (PROT N), que visa, segundo a comissão, promover e reforçar a coesão territorial da região Norte, contrariando as assimetrias intra-regionais, a competitividade social e económica, a equidade territorial e social de acesso a bens, serviços e oportunidades, a protecção dos recursos naturais e culturais, a eficácia e a racionalidade do uso do solo e a melhoria do sistema urbano metropolitano e regional.

O PROT prevê que Bragança se torne numa cidade regional, ao passo que Vila Real será rotulada como uma cidade de equilíbrio regional. Já Macedo de Cavaleiros e Mirandela serão consideradas centros estruturantes sub-regionais, classificações, portanto, que poderão ditar o esmorecimento da atracção de novos investimentos em Trás-os-Montes.

O edil brigantino; Jorge Nunes considera que o PROT vai condenar a região transmontana ao abandono. “O modelo territorial está completamente errado e isso vai condenar o interior ao esvaziamento de serviços e ao abandono da população, este documento devia contemplar a oportunidade de coesão e competitividade para o território da zona Norte no seu conjunto e não replicar modelos do passado, que dão mau resultado para o país”, referiu o autarca.“O modelo territorial está completamente errado”, considera Jorge Nunes

Este plano encontra-se presentemente em discussão pública, tendo já, Jorge Nunes, classificado o documento “de péssimo para a região de Trás-os-Montes, é uma proposta de planeamento unidireccional que privilegia um centralismo excessivo no Porto e não pensa o território de forma articulada com o território vizinho”, explicou o edil, indo mais ao longe ao afirmar que se este modelo territorial se manter, “vai resultar num empobrecimento do interior Norte, pela sua desqualificação em termos económicos e sociais”, afirmou.

Em sua defesa, o vice-presidente da CCDR-N, Paulo Gomes, afirma que o plano apenas “representa as condições mínimas que os municípios devem assegurar, para tornar a região norte mais competitiva” discordando solenemente que Bragança seja uma região penalizada e afiança que o município usufrui de muitos apoios, nomeadamente a nível cultural. A versão final do PROT estará concluída em finais de Agosto para depois ser submetida a aprovação por parte do Governo.

Vanessa Martins, Jornal Nordeste, 2009-07-22

Trás-os-Montes é das regiões mais pobres da Europa

A Associação Nacional das PME questiona «desperdício» dos fundos comunitários, depois da divulgação de um estudo que coloca a região Norte entre as mais pobres da União Europeia e Trás-os-Montes como a sub-região mais pobre.
O «Estudo sobre a Pobreza na Região Norte de Portugal», elaborado pelo Centro de Estatística da Associação Nacional das PME e pela Universidade Fernando Pessoa, para a Comissão Europeia, indica que a região Norte é a mais pobre de Portugal e está entre as 30 mais pobres das 254 regiões da UE25, enquanto Trás-os-Montes é classificada como a Sub-Região mais pobre da UE27.

Segundo o mesmo documento, enquanto em 2005/2006 havia cerca de 693 000 pobres na região, em 2009, existia cerca de um milhão «resultado do encerramento de muitas unidades fabris e falência de outras empresas que levaram ao despedimento de milhares de trabalhadores com a consequente redução dos seus rendimentos».

O presidente da Associação Nacional das PME, Fernando Augusto Morais, considerou que as conclusões do estudo são «surpreendentes», tendo em conta o investimento comunitário que foi canalizado para a região, através do Quadro Comunitário de Apoio III. «No ano 2000, as duas sub-regiões do Minho e Alto Douro e Trás-os-Montes foram identificadas como as mais pobres da UE-15. Por isso, a União Europeia injectou na região Norte cerca de sete mil milhões de euros entre 2000 e 2006 para que houvesse um crescimento de 4,5 por cento neste período, mas não só a região não cresceu como ainda por cima contém a sub-região mais pobre da UE-27», lembrou este responsável. «O dinheiro investido não atingiu os objectivos», resumiu Fernando Augusto Morais, criticando o «desperdício». O presidente da Associação considerou que é necessário responsabilizar as entidades responsáveis pela execução destes programas e o Estado e sublinhou que «os contribuintes europeus vão querer saber como foi aplicado este dinheiro». Fernando Augusto Morais lamentou também o facto de os recursos estarem «concentrados nos mais ricos».

O estudo refere que, apesar da Região Norte ser a mais pobre do país, é na Área Metropolitana do Porto que se encontram as duas maiores fortunas nacionais (Américo Amorim e Belmiro de Azevedo), bem como empresas líderes sectoriais e mundiais como a RAR e a CIN, a maior associação de grandes empresas do País (AEP) e a maior associação de jovens empresários (ANJE). O documento questiona ainda a abertura de cinco novos centros comerciais numa região onde existem já 25 destas grandes superfícies, o que «prejudicará o comércio tradicional, bem como o crescimento e o emprego».

«São visíveis situações de pobreza extrema, privação e precariedade», aponta o mesmo relatório, salientando que «a face mais visível desta «nova pobreza» é o aumento dos pedidos de ajuda alimentar junto das instituições de solidariedade social, muitas vezes, na sombra do anonimato onde se identificam professores desempregados e muitos outros técnicos superiores».

in Lusa, 2009-07-23