quarta-feira, 29 de abril de 2009

Obras públicas: fórum debate oportunidades para empresas e recursos humanos da região

Debater o impacto das novas obras públicas no desenvolvimento de Trás-os-Montes e apontar oportunidades para os jovens licenciados e empresas da região são os objectivos do Fórum “O Futuro é Hoje”, que pretende trazer a Vila Real representantes dos consórcios a quem foram adjudicadas essas obras.

De 19 a 21 de Maio, o Núcleo de Engenharia Civil (NEC) pretende reunir na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), representantes dos consórcios a quem foram adjudicadas o Túnel do Marão, a Auto-estrada Transmontana, o Itinerário Complementar 5, o Itinerário Principal 2, e ainda as barragens do Alto Tâmega, Sabor e Tua, juntamente com alunos do curso de Engenharia Civil e empresas da região do sector da construção.

“Os investimentos públicos não podem passar ao lado da região”, afirmou o representante do NEC, Rui Guedes, que sublinhou a importância de “antecipar necessidades a nível de recursos humanos” e de adaptar os programas dos cursos e o perfil do licenciado às necessidades do mercado que vão ser geradas com a construção destas infra-estruturas rodoviárias e empreendimentos hidroeléctricos. Rui Guedes sublinhou que não serão feitas obras em Trás-os-Montes com esta envergadura tão cedo e que “nunca a região teve tantos investimentos num período de tempo tão curto”. “Se as empresas da região não se prepararem para estes investimentos vão ser as empresas de outros locais, mais habituadas a este tipo de obras, a ganhar com eles”, afirmou o estudante de Engenharia Civil.

O director do Departamento de Engenharias da UTAD, Luís Ramos, lembrou que estas obras se vão reflectir nas economias de todos os municípios da região, não só naqueles onde vão ser construídas as novas infra-estruturas. “Os centros de formação profissionais, por exemplo, podem formar quadros intermédios em função das necessidades das obras”, afirmou.O professor salientou que estes investimentos vão criar um movimento capaz de reactivar várias áreas de negócios, como o alojamento ou a restauração. Luis Ramos lembrou que, muitas vezes, estes consórcios subcontratam empresas mais pequenas, o que se poderá transformar numa oportunidade para as empresas da região, caso estas se preparem a tempo para obedecer aos requisitos exigidos.

Luís Ramos vai aproveitar este Fórum para lançar um desafio aos autarcas, associações e demais entidades com responsabilidades na área para a elaboração de um estudo sobre o impacto destas obras nas localidades afectadas pelas obras, ao nível das oportunidades e desafios para as comunidades locais.

Estão já confirmadas as presenças do presidente da Iberdrola Portugal, Pina Moura, do director-geral da EDP, António Castro, e do membro do Conselho de Administração da Somague, Vieira de Sá. Soares da Costa e Monta-Engil também foram convidadas. Foi também endereçado um convite ao Primeiro-Ministro, José Sócrates, para estar presente neste Fórum.Este Fórum, para além de alertar consciências, pretende estabelecer laços com as empresas e concessionárias e dar visibilidade à UTAD. O Fórum “O Futuro é Hoje” é organizado pelo Núcleo de Engenharia Civil, com o apoio do Departamento de Engenharias da academia transmontana.

Sandra Borges in http://www.noticiasdevilareal.com

Moimenta: uma aldeia entre Portugal e Espanha

Enquanto o Grupo de Gaiteiros animava a tenda de artesanato e de produtos da terra, vários grupos de pessoas juntavam-se para ver a chega de touros de raça mirandesa, um dos principais cartazes da Feira Franca da Moimenta (Vinhais).

Não é possível quantificar os números da assistência, mas não será exagero dizer que se contavam aos milhares, tal era a moldura humana que compunha o tauródromo improvisado pela Junta de Freguesia. A primeira parelha demorou a medir forças e já havia público impaciente, mas o começo da luta fez esquecer as hesitações dos touros.

No recinto da feira, dois homens vendiam a “banha da cobra”, acenando com pares de meias, cobertores e blusões ao preço da chuva, que ambos pediam que caísse ao de leve para vender um pacote de dois guarda-chuva aos mais desprevenidos. Mas o sol alternava com algumas nuvens e a meteorologia esteve sempre do lado da Feira Franca da Moimenta e os carros que se acotovelavam nas duas principais entradas da aldeia atestavam o movimento de pessoas que por ali se vivia.

Há muito que a Feira Francafaz parte do calendário do povo espanhol
Na tenda coberta, máscaras de Vila Boa, licores de Santulhão, fumeiro de Vinhais e produtos caseiros da aldeia misturavam-se com o aroma libertado pelas tasquinhas. Cá fora, o Cão de Gado Transmontano disputava o habitual troféu, não fosse a Moimenta o berço do reconhecimento desta raça. Mais à frente, eram os bovinos de raça mirandesa que desfilavam sob o olhar atento do júri, enquanto iam chegando as dezenas de convidados da Junta de Freguesia para o almoço-convívio que decorreu no salão de festas da aldeia. Pelas ruas da aldeia era tão fácil ouvir falar português como espanhol, pois há muito que a Feira Franca faz parte do calendário de “nuestros hermanos”. Com o tal, o poder local de Espanha também faz questão de estar presente para assistir a actividades emblemáticas como a luta de touros, seguida atentamente pelo alcalde de Puebla de Sanábria, José Fernandez Blanco. A fechar, mais um encontro gastronómico na tenda gigante, em jeito “até para ao ano”.

Fonte: http://www.jornalnordeste.com/

Foz do Sabor: uma aldeia piscatória

Com pouco mais de 90 habitantes, a pequena localidade da Foz do Sabor, a uns escassos seis quilómetros de Torre de Moncorvo, é a única aldeia de pescadores na região transmontana. Apesar de estar situada no fértil Vale da Vilariça, a população da típica aldeia sempre se dedicou, ao longo dos séculos, à actividade piscatória que depressa se tornou no sustento de praticamente todas as famílias que por ali residem. É preciso recuar uns 40 ou 50 anos atrás, antes da construção das grandes barragens do rio Douro, para recordar que, nessa altura, o peixe abundava e era vendido nos concelhos vizinhos do sul do distrito de Bragança.

Actualmente, a Foz do Sabor é bastante procurada por turistas e pelos apreciadores dos saborosos partos de peixes do rio, em que as migas de peixe assumem um lugar de destaque, consideradas por muitos como uma verdadeira iguaria gastronómica. Porém, na memória dos mais velhos ainda prevalecem as imagens dos tempos duros da pesca, já que no Inverno era preciso pernoitar no barco para recolher as redes que traziam o pescado.

Ramiro Relha, um dos mais antigos pescadores da Foz do Sabor, ainda recorda que havia bastante competição entre os pescadores. “Os tempos eram outros e quanto mais depressa chegássemos à margem mais depressa começávamos a vender o peixe, o que era sinal de melhor negócio”, lembrou o pescador. A emigração tirou muita gente à aldeia e, agora, os pescadores são apenas meia dúzia de pessoas que, por gosto à terra ou falta de oportunidade, sempre foram ficando por aquelas paragens.

Apesar da procura de turistas, Foz do Sabor sofre com o drama da desertificaçãoNo café Beira-rio, a escassos 100 metros das margens, a sua proprietária, Aurora Soares, recorda que herdou negócio da sua sogra e adianta que não se queixa do negócio, já que há pessoas que vêm de muito longe para petiscar um peixinho do rio frito ou assado.

A cozinheira garante que o sabor do prato por si confeccionado não está só na qualidade do peixe, mas também em algumas ervas que se encontram nas margens do rio, sendo que a erva peixeira é o tempero máximo e único.No entanto, até ao próximo dia 1 de Junho é proibido pescar apesar de haver sempre um pescador mais afoito que ainda traz um “peixito do rio nem que seja para beber um copo de vinho com os amigos”, afiançam alguns pescadores, mas sempre com o receio de serem apanhados pelas forças do SEPNA da GNR.

Francisco Pinto in http://www.jornalnordeste.com/

Grande encontro de Montanheiros no Alvão

Perto de trezentas pessoas participaram, sábado, no I Encontro de Montanheiros de Vila Pouca de Aguiar sob o lema, flores, fragas e brisas transmontanas, em que se cumpriram estas expectativas biológicas e paisagísticas. Com um tempo primaveril que reforçou a recepção de boas-vindas, os caminheiros deram o primeiro passo no centro histórico rumo à encosta do Alvão.Organizada pela Associação Desportiva da Efacec, Caminheiros aguiarenses da casa F.C.P. e Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal, com apoio do Município, Juntas e entidades sociais e comerciais, a caminhada cultural e ecológica passou pelo Museu Municipal, capela e eira tradicional em Fontes, capela e a igreja de S. Tiago em Soutelo, casa da Nogueirinha em Pontido e Castelo de Aguiar. Foi numa eira central desta aldeia do Castelo que as energias foram revigoradas com presunto, broa ou um bom caldo de cebolas ao som das concertinas e da boa disposição dos presentes absorvidos pelas cores do monte, soutos e majestosas fragas graníticas.Destas, há uma enorme que foi colocada a bolir pelos caminheiros que foram chegando ao cimo da encosta do Alvão. Por entre sol e chuva, de passagem no ribeiro e no cruzeiro, por sepulturas medievais, gado maronês, capelinha de Paredes e um baile espontâneo com amêndoas, os montanheiros continuaram pelo Alvão, ladearam pelo grande lago e pela senhora da Luz até começar a descer a montanha do Alvão em direcção à sede de concelho. Mais de 20 km e dezenas de experiências que as pernas e os sentidos recebem e com olhares fotográficos à exposição no Museu. Jantar de convívio, conversar e cantar pela aventura de uma jornada por entre a natureza.
Fonte: http://www.avozdetrasosmontes.com/

INATEL quer investir no Douro e em Trás-os-Montes

Num momento de viragem da sua existência, o INATEL passou a Fundação INATEL. Agora pretende criar uma nova dinâmica através de um conjunto de investimentos direccionados para a Região Norte e no estabelecimento de acordos com alguns operadores turísticos, ligados ao ramo hoteleiro. Neste contexto, o Douro pode vir a ter um novo Hotel cuja localização aponta para as Caldas do Moledo, no concelho de Peso da RéguaEm Bragança o processo está mais adiantado, e tudo aponta para a construção de uma unidade com 50 quartos no espaço do Parque de Campismo. Em relação às Caldas de Moledo o processo pode ser mais moroso, uma vez que a Câmara do Peso da Régua quer tomar posse por usucapião do parque termal, cuja propriedade é também reivindicada pela nova Entidade Regional de Turismo do Douro, que já impugnou judicialmente as respectivas escrituras. O presidente do Conselho de Administração da Fundação INATEL, Vítor Ramalho, avançou, ao Nosso Jornal, estas duas iniciativas e abordou a nomeação da nova responsável pela Agência (acabaram as delegações) de Vila Real. Este responsável explicou as transformações feitas em termos administrativos e organizativos da instituição. “Estou ciente que estas alterações são para muito melhor. A Fundação passou a existir apenas desde 1 de Julho de 2008 e a actual administração tomou posse há quase sete meses, mais precisamente no dia 8 de Setembro de 2008”.O antigo deputado, eleito pelo PS pelo distrito de Vila Real, pormenorizou as mudanças. “Primeiro, alteramos a imagem que será dada a conhecer com mais força do que aquela que existia. Depois, as estruturas das delegações eram muito politizadas, em que as administrações eram nomeadas em função do cariz político que tinham e colocavam delegados, representantes dessa tendência política. A partir do momento em que passou a ser uma Fundação, com uma gestão empresarial muito mais forte, esta situação alterou-se. A minha preocupação imediata foi dotar os representantes das antigas delegações que agora se chamam Agências com quadros da própria instituição INATEL. São elementos que conhecem bem a casa. A Agência de Vila Real também está em restruturação. No distrito há uma nova responsável e, em breve, haverá também em Bragança. Estes responsáveis serão apoiados por assistentes técnicos na vertente do turismo, da cultura e do desporto, numa lógica enquadrada na função de um Delegado Regional, em função das NUTs, em que haverá cinco. A relação de proximidade com as associações, os centros de cultura e desporto vai ser muito mais dinamizada. A nova responsável de Vila Real, nasceu em Chaves e por vontade própria voltou para cá, e é uma pessoa que conhece as associações”. A sustentabilidade da Fundação INATEL tem sido questionada por alguns quadrantes políticos. A Instituição, por si, será capaz de fazer tranquilamente esta mutação? “Ao contrário do que as pessoas possam pensar, o Inatel vai avançar numa lógica de auto-sustentabilidade, o que significa que os recursos próprios vão ter de aumentar de forma significativa. Até há pouco tempo todo o orçamento provinha do Estado”. Quanto a investimentos, este responsável levantou o véu de alguns que estão na calha e que poderão ser uma mais-valia para Trás-os- -Montes e Alto Douro. “Nesta região, vamos estabelecer laços de proximidade com o turismo da Região do Douro, mormente na área da hotelaria e associações. Iremos criar, aqui, uma unidade hoteleira que poderá ser nas Caldas de Moledo. Para o efeito já tive duas reuniões com António Martinho, responsável da Turismo Douro. Está tudo bem encaminhado, há apenas alguns constrangimentos resultantes de uma conflitualidade normal entre Câmaras. Se esta situação for superada, da nossa parte há vontade de avançar e construir o hotel nas Caldas de Moledo. Temos uma grande experiência, sente-se que esta região precisa de ter este reforço de equipamentos, agora falta apenas o entendimento entre a Câmara e a Turismo Douro”.Por sua vez, o presidente da Turismo Douro, António Martinho, vê com bons olhos a possibilidade destes investimentos. “Em Portugal, o INATEL é hoje um dos maiores operadores turísticos, onde o Turismo Sénior e Social têm a gestão de termas. Podia ser uma virtualidade para a região. Deixemos que as coisas sigam o seu caminho naturalmente e o mais importante é aproveitarmos tudo o que temos de bom no Douro. Caso contrário, as gerações vindouras não nos iriam perdoar”. Recorde-se que foi D. Antónia Adelaide Ferreira, (conhecida como Ferreirinha), em 1880, quem mandou construir as termas das Caldas do Moledo, o seu parque frondoso de plátanos “manchado” por uma célebre poda cirúrgica, há uns anos atrás, e um palácio para acolher o rei D. Luís I, cujo imóvel arruinado ainda existe. Para o distrito de Bragança, Vítor Ramalho também avançou com novidades. “Recentemente, falei com o Presidente da Câmara Municipal de Bragança sobre o Parque de Campismo que começou a ser explorado há pouco tempo e o INATEL tem de realizar um conjunto de obrigações. Estas conversações com o Presidente da Câmara vão no sentido de projectarmos, em conjunto, uma candidatura de investimento ao novo QREN, para que haja possibilidade da concretização do protocolo que já está outorgado entre a Câmara e o INATEL. Sinceramente, espero que o Parque de Campismo seja valorizado, onde se prevê a construção de uma nova unidade hoteleira com 50 quartos. O projecto ainda não está concretizado, mas espero dinamizá- -lo o mais breve possível”. Vítor Ramalho aproveitou para anunciar a recuperação de duas pousadas na região Norte. “Vamos melhorar e requalificar a Pousada de Vila Nova de Cerveira, uma unidade importante que serve toda a região minhota. Será igualmente requalificada a de Vila da Feira. Estas obras esperaram financiamento há cerca de sete anos, e vão finalmente avançar, ainda este ano, de forma a transformar completamente estas duas unidades.A unidade de Vila Nova de Cerveira está orçada em 500 mil euros e a da Vila da Feira será mais onerosa, numa requalificação a rondar um milhão de euros”.
José Manuel Cardoso in http://www.avozdetrasosmontes.com/

Sonoridades resgatadas em Pensalves

A energia sobra-lhe nos gestos que a idade tornou rotineiros. O corpo irrequieto revela a argúcia com que domina as ferramentas espalhadas pela banca de trabalho. As mãos gastas vão conversando à volta do bombo em construção...
Nem a porta escancarada empresta mais luminosidade à oficina onde executa os procedimentos necessários à construção ou reparação de instrumentos musicais. A chuva que cai lá fora e o frio que se sente cá dentro, não demovem João Batista Almeida de dar voltas e voltas aos aros até que, por fim, assentam na forma circular que os vai sustentar. É na pequena povoação de Cabanes, na freguesia aguiarense de Pensalves, que o artesão de 74 anos abraça este ofício há largos anos. Tudo começou porque, certo dia, queria um bombo para acompanhar a arruada ao povo. “Disseram-me ‘fazes um’. Então, arranjei umas vergas de castanho, um bocado de platex e fiz um bombo. Comecei a fazê-los e nunca mais comprei nenhum.” Em si há um olhar astuto de quem, orgulhosamente, aprendeu sozinho um ofício invulgar. “Vi um bombo velho, desmanchei-o para ver a forma como estava feito e fiz por aquele.” A essa primeira tentativa bem sucedida, João Batista Almeida não parou de arranjar instrumentos: bombos, concertinas e castanholas, mas como um trabalho alternativo, porque sempre trabalhou “as terras”. Contudo, foi graças aos bombos que conseguiu “governar a vida”. O processo de fabrico parece ser encarado com facilidade, à excepção de uma fase. “O que dá mais trabalho é fazer os aros e depois, coser os coiratos [formas triangulares de segurar as cordas]”. Se já tiver os aros feitos, João Batista Almeida assegura que num dia, faz um bombo. “O que demora mais a fazer são os aros, que têm que ser serrados e feitos logo, ainda em verde.” Feitos em negrilho ou canacipe, madeiras que arranja com facilidade pelas matas da aldeia, os aros são alisados com a navalha e a plaina, mas, por vezes, têm que ser serrados numa fábrica em Vila Pouca de Aguiar. João Batista Almeida procura reaproveitar materiais para a superfície cilíndrica do tambor. Por isso, já chegou a utilizar um tambor de uma máquina de lavar a roupa, um barril ou mesmo um bidão cortado. Os únicos materiais que adquire são chapas de alumínio e as cordas, uma vez que até “os coiratos são feitos de botas velhas”. A pele do tambor é devidamente talhada e demolhada antes de ser esticada nas bases da superfície cilíndrica. Uma tarefa que requer “muita paciência” e na qual o artesão conta com a ajuda da esposa. “Às vezes, chateava-me, porque metia de um lado e saltava do outro”, conta o artesão. Posteriormente, João Batista Almeida coloca um dos aros e vira a pele com uma chave de fendas. “Depois meto outro arco em cima, colado com cola da madeira”, revela. As vibrações da pele e do corpo do tambor são as responsáveis pela emissão de som, o que leva o artesão a preferir as peles de ovelha ou de cordeiro. “É que zoam melhor”, justifica. Em tempos, eram utilizadas peles de cão, essas é que “zoam bem”. Na etapa final, são colocadas as cordas e apertadas. Os buracos para que elas passem são feitos com “um espeto quente reluzente”, que está “ao ar da braseira”. “A minha única máquina é o espeto, de resto é tudo feito à mão”, sublinha o artesão aguiarense. As cores dos bombos variam entre o branco e o vermelho, o branco e o azul, o verde ou o preto e são aplicadas com um pincel. Como “não há por aqui ninguém que os faça”, João Batista Almeida é procurado por pessoas “de todo o lado”. Pela proximidade, vêm de Vila Pouca de Aguiar e de Ribeira de Pena, depois também do Douro, do Minho e até de Bragança. Há ainda quem os leve para os grupos folclóricos da Suiça, da França e da Alemanha. O preço do bombo é determinado pelo tamanho, assim pode oscilar entre os 25 e os 100 euros. “Os mais pequeninos são mais ruins de fazer do que os grandes e demoram mais. Um bombo grande verga-se melhor, a madeira não parte tanto”, revela o artesão. De baqueta em punho, João Batista Almeida faz zoar um dos muitos bombos que já produziu, envergando um sorriso de evidente satisfação.

Legado (in)transmissível
Já o seu filho, Delfim Dias Lopes, dedica-se ao conserto e à criação de concertinas. Com um mestre mesmo ao seu lado, não foi preciso outra escola. Foi aprendendo por observação e intuição. “Isto é mais por artesanato e se uma pessoa há-de estar aí sem fazer nada, vai-se entretendo”, justifica. Basta-lhe o ouvido para perceber o que está a soar mal e, consequentemente, a reparação necessária. “Podem precisar de afinações, de botar línguas [teclas], de cobrir foles ou de reparar botões e correias.” O compasso de espera varia conforme o tipo de conserto. “Se for só para afinar, são umas três ou quatro horas; já para pôr as línguas, uma meia hora”, explica. No sossego da tarde, embala uma concertina desarranjada. “Tinha as línguas partidas, depois têm que ser afinadas. O fole está a ser todo forrado de novo para ficar mais duro e bonito. À frente, vai levar um feitio: uma estrela.” Delfim assegura que fazer uma concertina “dá bastante trabalho”, implica “serrar a madeira, passá-la na plaina, lixá-la, tirar todas as medidas certinhas”. Sem qualquer formação na área da música, vai procurando as afinações na banca artesanal para “pô-la a tocar em sol ou em fá”. Sempre que possível, procura recuperar peças de concertinas que se calaram, enquanto “um ferro quente” faz todos os signos decorativos. Aos 41 anos, Delfim intercala esta actividade com trabalhos temporários na Suiça, até porque “lá se vai ganhando mais algum”. Por isso, fazer uma concertina demora-lhe cerca de dois meses, se trabalhasse a tempo inteiro, era suficiente uma semana. “A concertina que foi para a França, vendia por 500 euros, mas era pequenina. Esta será para 1 500.” Os emigrantes costumam ser compradores preferenciais. “Os emigrantes que têm lá ranchos vêm cá muitas vezes, de cada vez levam sempre três a quatro concertinas.” Como instrumento de palhetas livres e fole, a concertina tem nítidas semelhanças com o acordeão, mas uma sonoridade distinta. João Batista exibe os seus dotes musicais em várias concertinas, também elas parte integrante da família. Com discreta reverência, vai pressionando os teclados que flanqueiam o fole e as notas musicais vão povoando a atmosfera numa cadência melodiosa. Ao seu lado, a esposa, Maria Isaltina, entoa cantigas de sempre. “Gosto muito de cantar, já tocar não me puxa”, confidencia. Também Delfim se diz tocador de todos os instrumentos, embora o pai não o deixasse tocar na concertina quando era mais pequeno. “Quando ele [João Almeida] ia com as vacas, era eu que lhe dizia para ir tocar e eu cantava”, conta a mãe. Na verdade, toda a família mantém uma ligação muito estreita com a música. Dois dos quatro filhos trabalham na mesma arte do pai, que “mal se põe a pé, já está a tocar na concertina e acaba de cear, senta-se no escano e toca”, revela Maria Isaltina. Sem pauta formal, mas com uma percepção auditiva invejável, João Almeida procura ouvir as zoadas fortes que se desprendem dos bombos que materializa e retirar das cacofonias das concertinas, uma combinação harmoniosa de sons.
Patrícia Posse in http://www.mensageironoticias.pt/

Os moínhos utilizados na moagem do cereal

Da agueira para a calha e desta para o rodízio. Depois as pedras giram, esmagam o grão e a farinha cai, mas raramente, pois poucos são os moinhos que resistem à modernidade. O de Frieira é um deles.
“Quando tem água bebe vinho, quando não tem água bebe água”. Assim se contava antigamente da profissão de moleiro, dito justificado no leito de água que fazia o moinho trabalhar, que quando secava não permitia que o grão passasse a pó e deixava o moleiro sem rendimento. Os moinhos, engenhos hídricos introduzidos por romanos e árabes em diferentes períodos na Península Ibérica, proliferaram em Trás-os-Montes, utilizados na moagem do cereal. Actualmente, as pequenas construções do nordeste transmontano encontram-se maioritariamente em ruínas, sendo escassos os que ainda funcionam, de que é exemplo o moinho de rodízio, na aldeia de Frieira, concelho de Bragança. Inicialmente propriedade de famílias de Frieira, Sanceriz e Izeda, denominados de “herdeiros”, a partir da década de 60 passa a “moinho do povo” e ainda hoje alguns populares utilizam o engenho para moagem de cereais, principalmente para alimentar os animais que criam. Situado à beira da ribeira Vale de Moinhos, assim denominada devido ao número de construções que existia na aldeia, com a ponte medieval no horizonte, o moinho de Frieira emerge de cara lavada, pois o antigo edifício foi objecto de recuperação em 2005. A acompanhar, um e outro habitante que vai usufruindo dos primeiros raios de sol de Março. “Antigamente vinha muita gente aqui moer, de Izeda e assim, os herdeiros. Vinham com carradas de sacos e traziam os criados. Estavam aqui aos dois dias seguidos a moer. E, às vezes, os de Morais estavam cá às semanas, porque moíam para todo o ano. E não dava muito trabalho, porque é só botar a pedra a andar e ela roda e mói. A água é que faz tudo”, lembra Ana Maria Branco, que vai conversando com as vizinhas que acenam que sim, que dantes era outro movimento numa terra que “quase não vê ninguém e só tem meia dúzia de velhos”. Maria de Jesus Martins vai contando que “o moinho estava sempre aberto, pois tinha sempre gente. Muitos faziam fogueiras, levavam merendas e vinho e dormiam lá toda a noite. Nunca parava e eram uns atrás dos outros. Faziam farinha para todo o ano, que depois guardavam em arcas de madeira e iam cozendo conforme precisassem”. Apesar de o rodízio (roda de madeira com as palhetas em forma de concha que se movimenta com a força da água, fazendo rodar as pedras que moem) hoje em dia rodar pouco, ainda há quem utilize o engenho para moer o cereal, seja por hábitos antigos, por gosto ou seja por questões economicistas, uma vez que, como explicou Maria Augusta, “o pão do padeiro é caro”. Com um olhar azul profundo, orgulha-se de ainda fazer o pão à moda antiga: “eu ainda cozo o meu pão. Sai moreno, mas sabe bem, pois é sumento. O meu pão dura uma semana e nem seca nem apodrece. O do padeiro põe-se logo duro e áspero. Moer, moo pouco, pois não tenho que moer, mas ainda há quem moa para as galinhas e animais”. Ao lado, Maria do Céu Rodrigues corrobora e sublinha que “o pão à moda antiga é muito melhor. Mesmo comprando a farinha. E rende mais um pão que nós cozemos do que três dos comprados. Esses, em tirando duas ou três torradas vai-se embora”. Acrescenta, satisfeita, que “agora a gente com as arcas mete-os lá, congela e depois vai comendo. Tenho um filho em Torres Novas que quando cá vem cozo-lhe uma fornada de pão para levar, que ele não compra pão. Até porque o pão comprado leva muito fermento”. Na mesa de granito à sombra, Cândido Ramos elogia o pão das senhoras, adiantando ser o único que consome: “eu só como o pão cozido pelas mulheres daqui e não do padeiro. Mas a maioria já compra a farinha e não mói, porque fica mais barato e não dá trabalho. Agora o pão é melhor e dura mais e não é como o do padeiro que vai embora de repente”. As saudades do tempo em que os moinhos de Frieira traziam gente levam as mulheres a recordar, em conversa, os herdeiros, os destinos, a vida que a aldeia tinha “antes da chegada das máquinas”. Com Hermenegildo Pires como guia, filho e neto de moleiros, a visita ao moinho de Frieira começa por fora, junto à represa que armazena a água que depois é canalizada pela denominada “agueira do moinho”, que emboca na calha, mais larga em cima, onde a água é conduzida com pressão para fazer mover o rodízio. Já dentro do antigo edifício centenário, actualmente recuperado, Hermenegildo vai explicando como tudo se processa: “uma destas pedras está fixa e a de cima é a força da água no rodízio que a faz andar, no sentido dos ponteiros do relógio. É da fricção de pedra com pedra que se mói o grão. O grão é despejado na tramóia (espécie de funil de madeira suspenso sobre a pedra), e depois cai pela calha para o buraco da pedra, mas o cereal só cai com a trepidação do tarabelo, pequeno pau encostado à calha e que vai estremecendo com a rotação da pedra, com maior ou menor vibração de acordo com o peso, pequena pedra pendurada”. Gesticulando e apontando em pormenor os engenhos que compõem o moinho, o herdeiro dos moleiros de Frieira continua a descrever o processo: “no caso de se querer moer para animais o grão pode cair mais depressa, porque a farinha pode ficar mais grossa. Quando é para pão, tem que ficar mais fina e então o grão corre menos. Depois a farinha moída cai do intervalo das pedras para o farneiro, de onde, com a pá, é retirada e ensacada, com a ajuda das estacas, em forma de fisga, que mantêm os sacos abertos”. E, antigamente, quer os sacos de cereal, quer os de farinha eram transportados em cargas por burros. “Os moleiros iam buscar o cereal e depois voltavam para entregar a farinha. O seu trabalho era pago em grão. Antes de moerem tiravam sempre a chamada maquia em cereal e depois vendiam ou moíam para si”, explicou. Para Hermenegildo Pires o moinho não esconde nenhum segredo, pois, como recorda, foi criado junto às pedras e dormiu muitas horas aninhado junto à lareira do moinho, presença obrigatória em todos os engenhos hídricos para o moleiro se aquecer nas duras noites de inverno. “O meu pai foi moleiro aqui em baixo durante muitos anos e eu gostava muito de ir moer. Havia aqui muitos moinhos e moleiros. Mas o do meu pai tinha três casais de pedras, dois deles de pedras alveiras, onde moíam o trigo, porque tinha que ser uma farinha mais fina, e um par de cantaria, utilizado para moer o centeio e outras farinhas para os animais. E os três casais de pedras moíam todos ao mesmo tempo”, lembra com orgulho, lamentando que hoje em dia o uso dos moinhos seja esporádico e, maioritariamente, para ração de animais. “Agora já só se mói para animais. Desde que apareceram as indústrias das moagens, os moinhos movidos a água quase deixaram de funcionar. E também não há pessoas suficientes para dar uso aos moinhos”, concluiu, com saudades do moinho dos avós e pais, “o dos Américos”, como era conhecido. De regresso aos bancos de granito junto à ribeira, as mulheres continuam sentadas, partilhando histórias e memórias. Lamentam não haver moinho, mas sobretudo a falta de “gente que animava a terra, que era tanta que marcava vaga e dormia por aqui”.
Aida Sofia Lima in http://www.mensageironoticias.pt/